Valente
Romeu é um gato simples.
Dá pra contar nas mãos as coisas que ele ama da vidinha dele - Beijinho na testa, comida, fiozinhos, solzinho e catnip. Recentemente acrescentamos à esta lista Rakan, o gato-golpe-lar-temporário-que-virou-permanente. Rakan chegou em casa à pedido de uma ong amiga e ficaria aqui até se recuperar de uma cirurgia nos olhos. Quando se recuperou, já era tarde: ele e Romeu estavam num affair, cheio de brincadeiras, chamegos e banhos. Romeu tem pavor de rua, do desconhecido e de barulho.
Acontece que Rakan é um gato valente, curioso e destemido - O oposto de seu novo amigo Romeu. É comum, por exemplo, que Rakan desça comigo de elevador quando eu preciso pegar uma comida ou algo na portaria. Mesmo não estando completamente confortável com a experiência dessa caixa de porta mágica, ele vem colado no meu pé, e aproveita o rolê com uma cauda a meio mastro e sua companheira curiosidade. Já Romeu nunca quis saber de caixa de porta mágica: ele já tem uma caixa de papelão muito das boas - que cabe ele todinho - e não tem porque pensar em mudar e procurar outras caixas por aí.
Exceto por ontem.
Ontem, Romeu acordou valente.
Fui buscar uma encomenda, e antes que eu pudesse fechar a porta ambos os felinos entraram no elevador. Não me preocupei, porque os dois costumam vir quando chamo, e mesmo sendo valente, Rakan tem 0 interesse em sair para a rua - está muito bem obrigado explorando as escadas e portaria.
“Vai ser simples”, pensei. “saio do elevador, Romeu vai se esconder num canto, Rakan vai esperar na porta do elevador como sempre. Pego a encomenda, volto, abro a porta, chamo e ambos vão entrar no elevador”.
“Com toda certeza.”
Romeu não gostou deste plano. Ao perceber o mundo de cheiros complexos e desconhecidos do térreo, toda sua valentia desapareceu e o gato precisou procurar abrigo I M E D I A T A M E N T E. Encontrou um lugar seguro - a sala onde os humanos guardam o lixo - e foi como uma bala, rebaixado em 40% de sua altura normal, com uma cauda entre as pernas, orelhas coladas na nuca e um miado choroso.
Rakan, que já é frequentador desta parte do prédio, começou a chamá-lo e tentar mostrar que, para voltar para casa, era só subir as escadas ao lado da casinha do lixo. Nos poucos segundos que tudo isso ocorreu, eu, a humana, fiquei paralisada sem saber se acudia o apavorado entre os sacos de lixo, buscava o valente escada acima ou a encomenda na portaria.
Decidi então, buscar a encomenda; Romeu não sairia dali tão cedo e Rakan viria quando eu chamasse. Já não sabia se o entregador teria tanta paciência.
Encomenda embaixo de um braço, resgatei Romeu entre os sacos pretos no outro e chamei Rakan - que insistia em mostrar o caminho das pedras para Romeu e nos chamava já do primeiro andar do prédio. Fomos buscar Rakan, mas Romeu, que não estava pronto para outra novidade - que diabos é essa tal de escada? - transforma seus 5,5kgs em 35kg e em movimentos rapidos pula do meu colo para a salinha escura novamente.
Mudei de estratégia.
Subi o primeiro lance de escadas, peguei os 6 kgs de Rakan - que já estavam quase no segundo andar - com o braço livre. Descemos até a salinha do lixo. Soltei Rakan, peguei Romeu. Entramos no elevador: eu, a encomenda, um gato apavorado, um gato obediente e mais uma ideia de HQ.
Em breve (título temporário):
“Romeu quer ir ao mar”
Ainda estou experimentando estilos enquanto resolvo o roteiro, mas será minha primeira ficção. Então fiquem com uma imagenzinha do que pode vir a ser a primeira página desse quadrinho:


